quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Noturno



Acoitadas pelo bafo de outono
Assisto impassível  
O último voo das mortas folhas decaídas

súbito desapego invade a alma
inércia incita devaneios
aos ouvidos chegam
soturnos murmúrios longínquos

desvario forja a alma aos lampejos
torpor aos poucos me dilacera
os sentidos me abandonam,
cães  vagabundos

sou o que tudo vê, o que tudo sente
sou um todo: nem pés, nem cabeça,
sou único, ouço com os pés e vejo
a tudo com todas as células.

sou em todo vida e sentido:
sou a chuva que viaja ferindo
rasgos na terra.

raio inflamado que cai
reluzindo a floresta escura
sou a própria floresta em chamas

sou aquele boi que berra
temendo de mim mesmo meu sacrifício
escondo-me de min.

sou a noite lasciva que seduz meu caminhar,
e, caminhando em círculos,
perco-me em mim mesmo.

desejo com ambição o céu
vivo ardentemente à terra!

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A Terceira Margem do Rio - (Guimarães Rosa)


  
     Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente - minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.
     Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescaria e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
     Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: - "Cê vai, ocê fique, você nunca volte". Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: - "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou a olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo - a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.
     Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.
     Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas - passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda - descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.
     No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no aluminado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.
     Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão daquele.
     A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com o sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos - sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo - de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.
     Nossa irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.
     Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: - "Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim..."; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.
     Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei - na vagação, no rio, no ermo - sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de  nada, mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro: meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.
     Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio - ponto perpétuo. Eu sofria já o começo da velhice - esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse - se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.
     Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: - "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.
     Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto - o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.
     Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água, que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro - o rio.


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Insolação - (Estripulias do Saci)


Aqui tudo vai de mal a pior. Toda tarde uma grande nuvem surgia no horizonte arrastando-se em nosso rumo. Olhávamos como encantados para ela esperando o primeiro pingo. Nada. Ficávamos até tarde esperando o milagre do primeiro pingo. A noite avançava, a nuvem esvaía-se ficando a angústia ressecando a garganta. Ao apertar-lhe as tetas, em resposta, as pobres vacas soltavam um mugido de dor. No dia anterior a última tombou sem vida, em puro couro, osso e um fiapo de som rouco no lugar do mugido.
Ficou ali mesmo onde caíra. Não havia ânimo para arrastá-la para algum lugar. Nem tinha o que feder. Puro couro e osso. Nem os carcarás ousaram deixar o galho seco para apreciar a carniça. Ficaram pendurados aos galhos como frutas malditas de um tronco sem vida. A bica d’água parou de escorrer. Agora era preciso caminhar até o leito do córrego, pisar com cuidado para não espantar os ciscos, e encher a vasilha maior com uma menor.
Ontem mesmo, meu pai voltou do campo ainda mais desolado. Fiquei sabendo mais tarde, pela minha mãe – o potro que eu havia ganhado no aniversário passado, amanhecera morto no brejo. Certamente à procura de beber.
Quando me levantei, a manhã estava límpida. Nenhum risco de nuvem no infinito azul. Ao caminhar, os pés queimavam nas labaredas invisíveis. Dava dois ou três saltos antes de me acomodar sob alguma moita de arbustos ressequidos. Andei sem um propósito sequer. O calor insuportável enervava todos. Eu me mexia saltitante em volta da casa. Minha mãe resmungava num canto.
O calor insuportável, os resmungos, as aves de rapina quietas, o silêncio do mau pai, a nuvem que vinha todas as tardes arrastando a barrigona sobre os galhos secos. Ainda para completar, começaram os espirrar sem parar. O motivo devia ser uma onda de fumaça que se aproximava rastejante, afagando tudo que encontrava pela frente. Ainda ouvi meu pai gritar do limiar da porta, “os diabos abriram a porta do inferno! Não há outra explicação”. Depois, senti que a terra se remexia sob meus pés, fazia ondas gigantes e em seguida me precipitou num abismo vertiginoso.
Eu insistia em andar aos tropeços, agachado sobre os calcanhares, deitando de barriga no chão. A terra dava voltas e mais voltas. Eu, determinado, enterrava as unhas no chão, sangrava, doía. Mas eu não podia me soltar. Com muito custo, alcancei a porta, olhei para os lados e não havia ninguém, embora eu continuasse a ouvir os resmungos de minha mãe no meio do redemoinho de silêncio. Meus dedos sangravam. Arrastei-me com os cotovelos até meu quarto. Subi com dificuldade na cama e fiquei quieto como bicho à espreita. As roupas estavam molhadas, e o corpo tremia de frio.
O rumor agora era o murmurar do vento contra os galhos das árvores na noite. Aos poucos o escuro foi se agitando. Ventos torciam os ingazeiros rufando trovões, estremecendo a terra. Deitado, observei através das frinchas da parede riscos dos raios no céu negro. A lamparina ao pé da cama não parava acesa por conta da ventania a invadir o quarto; e a luz era consumida pela escuridão.
No piquete, o tropel misturava-se ao retumbar das descargas dos trovões. Os animais incitavam em estridente disparada e esticavam até bater o peito no outro extremo do cercado. Viravam e reiniciavam a corrida, relinchando. Em meio a essa balbúrdia, finíssimos assovios rompiam a tempestade e feriam-me, como finas agulhas, os ouvidos – provocando estremecimento no corpo inteiro.
– Liga não, é o saci montando os cavalos. Ele aproveita as noites escuras para cavalgar e fazer tranças nas crinas dos animais. Quase se matam de correr, os pobres bichos. Dizem que ele é sozinho e assovia, procurando um companheiro. Por isso não é bom assoviar à noite; porque daí ele vem falar com você, querer amizade – diziam os mais velhos, jogando conversa fora, sentados à sombra copada do jamelão. Essa ideia me deixava apequenado.
Enrolava-me o mais que podia. Mas mesmo assim ainda era possível ver os relâmpagos através da espessa malha do cobertor. Os vultos se contorcendo do lado de fora me deixavam com dificuldades de respirar. Minha imaginação mirava monstros de todas as espécies, mesmo os olhos fechados. Meu coração agitava-se e as mãos trêmulas se esfregavam suadas.
O quarto vagava através da tempestade. Não saberia distinguir a realidade nesse momento. O que sei é que um homem, com um meio sorriso, aproximou-se de mim. Caminhando lentamente, estendeu-me os braços:
– Você assoviou para mim?
Meus sentidos me faltaram, o grito morreu na garganta. Tentei correr, percebi que tropeçara em algo estendido no chão. Caí de rosto na terra fria e, no desespero, olhei para o lado. Dei com as vistas nos pés da criatura. Estavam virados para trás.
Quis correr, mas dois braços colocaram fim à minha intenção. Gritei com todas as forças, e agora podia ouvir meu próprio grito chegar frenético aos meus ouvidos – para logo em seguida uma voz familiar me acalmar:
– Está com febre, todo molhado de suor. – Abri os olhos e o sol já nascera. Olhei para os lados, ainda ofegando muito. Uma caneca com chá-de-laranja fumegava em minhas mãos.
– Bem quente... Corta a febre.
Mais tarde já pude sair do resguardo. Recobrados os sentidos, dei uma volta pelo terreiro. Espichei até o pé de jamelão. Por curiosidade, olhei-o de baixo a cima. Estava todo retorcido. Examinei atentamente o chão: seco, completamente seco, sem um pingo de chuva. Conjeturei a possibilidade de sonho. Mas, e os galhos retorcidos? Os rastros dos pés descalços no terreiro, as cercas arrebentadas? Os cavalos que não se encontravam presos? As tabuinhas reviradas na cumeeira – pela ventania, só pode!
Passei o dia encabulado, minha mãe enchendo-me de todo tipo de chá e simpatia. “Tá esquisito, esse menino”, ouvia ao longe como se as vozes ecoassem através de um longo túnel.
Acredito que estava dormindo, quando um estrondo me fez acordar e saltar da cama com o cobertor na mão. Não dormi de imediato. Depois de um tempo, voltei a pegar no sono. Quando levantei, a manhã estava escura de nuvens, como nas vésperas, porém a fumaça era menos intensa. E observando melhor, as nuvens pareciam mais baixas e mais pesadas, como se tivessem inchadas, ou prenhes de chuva. Cheguei a sorrir com esse fugaz pensamento.
O calor não estava tão insuportável como nos dias anteriores. Se minha imaginação não me traía, uma corrente chegava tímida de algum buraco. Ergui a cabeça e farejei o cheiro de ar fresco, como há muito não sentia. A terra vibrou como que estremunhada de sono profundo.
Por instinto, joguei-me ao chão. Mal tive tempo de gritar, quando as aves de rapina bateram asas e abandonaram o galho seco depois de muito tempo. A chuva chegou num repente, como se as nuvens abrissem suas barrigonas. Aos poucos os barulhos das coisas foram retornando. Dava para cheirar o ar. E o cheiro de podre chegou através da bica d’água. Passou pela cozinha e correu escura por um tempo. Depois, clareou e levou consigo o cheiro de podre. O riozinho que quase se finara, ergueu-se com uma orquestra de ruídos.

Um relincho vindo do curral despertou minha atenção. Os cavalos haviam retornado. Meu coração saltou alegre. Entre todos, reconheci o potro que havia ganhado de presente de aniversário. Corri e o abracei pelo pescoço; ele relinchou novamente como se não me visse há muito tempo. Suas crinas trançadas caprichosamente em três pontas. Tentei desatar as tranças, mas uma dor aguda impediu os movimentos de meus dedos. Meu pai ao lado me olhou com naturalidade. Até sorria depois de muito tempo. Os meus dedos estavam em carne viva e sangravam tingindo a crina do animal.

sábado, 12 de outubro de 2013

Pique-ajuda



Acomodei-me e respirei fundo. A corrida minara-me as forças, mas tinha conseguido meu intento. Havia conseguido derrotá-lo da forma mais cruel. Escondi-lhe as roupas de escola. Ele apanhou muito. Fiquei com um pouco de pena e devolvi suas roupas às escondidas na varanda da casa. A camisa branca, vermelha de barro, mas devolvi. Também, quem manda se meter com a namorada dos outros. Ela não voltara comigo, mas havia largado ele, ali, no meio do pátio, na frente de todos os alunos.
Primeiro, às escondidas, pegamos um toco de batom de minha irmã mais velha; pintei a boca e quando ele saiu no intervalo da aula, beijei várias bocas vermelhas no caderno dele assinando com o nome de uma menina que não existia. Mas ela não haveria de saber esse detalhe.
Ela também merecia. Eles haviam combinado estudar juntos à tardinha. Foi um reboliço. Ela o estapeou na frente de todos. De quebra, minha irmã queria saber como o batom dela foi parar no caderno dele.
A noite tinha se aproximado a passos macios. Meu peito roncava querendo ar. Uma das mãos acudia o peito, a outra especada no pé de jamelão.
Meu tempo estava acabando, tinha novamente que ficar à disposição do pega. Mirei o vulto do pé de mamoneira e disparei uma corrida estrepitosa. Os calcanhares batiam na bunda, o vento soprava nos ouvidos, vuuuuuuuuuu! vuuuuuuuuuu! Meu sorriso ficou largo quando minha barriga sentiu o chão áspero sob a mamoneira.
A meninada batucava os pés descalços na terra batida. Eu, com uma orelha pregada no chão, ouvia o corre-corre que se aproximava e se afastava. A terra vibrava sob aqueles pés lépidos. O ar reverberava sob o efeito da algazarra das gargantas juvenis. Não se ouvia outra coisa além dos tuque-tuques acelerados e os berros. Ora ou outra vinha um grito dizer ao meu ouvido:
– Te peguei! Agora você é o pega!
Eu era um dos maiores do grupo. Mas não dos mais danados – esses, geralmente, são menores. A algazarra continuava. O ponto de referência era o pé de jamelão. Eu gostando de estar ali, na sombra da lua desmilinguida que desfilava lá no alto, parecendo foice sem cabo. Mesmo com sua luz fraquinha, ela atravessava as folhas da mamoneira e pincelava meu rosto com rajadas claras.
Pus-me de pé e firmei o pensamento no rumo da árvore. Minhas pernas desprenderam novamente uma corrida louca. Os ramos faziam arder minhas canelas de socó. Agora era um bando de pegas. Eu era o último a ser pego; porém, eu não sabia. Mirei a grande sombra, mas, quando já ia imaginando esticar o braço para tocar o jamelão, tropecei numa raiz e fui de cara na terra.
A noite entrou em meus olhos e ateou fogo na carne assim que ouvi uma gargalhada sátira emparelhada comigo. Minha mão estalou numa fuça, ardeu e formigou, estancando a maldita galhofa. Emergiu, imediatamente, um choro. A foice, lá do céu, cortou um pouco do escuro do meu olhar. O fogo do sangue acalentava as cinzas.
Tudo indicava calmaria quando muitas bocas gritaram em uníssono:
– CUIDADO!
Meu pescoço se torceu um pouco para a direita. Um objeto passou sibilando grosso junto à minha orelha, vuuuup! Chegou a arder – ainda que não muito –, instantes depois. Foi estrondar no peito do jamelão. Não diria nada em casa. De nada adiantava: custar-me-ia bem uma surra de vara verde, daquelas de levantar calombo, e depois a marca ficaria pregada na pele por uma semana.
Aquelas conjecturas me tiraram a inspiração para o pique-ajuda. Resolvi parar. Afinal, já “tava bem grandinho”, como dizia minha mãe.
Na manhãzinha, com o chilrear dos pássaros e a noite já tendo abandonado as galhadas do jamelão, acheguei-me bem perto para avaliar o estrago. Aquela maldita banda de tijolo molestou a minha orelha a noite inteira. A pobre estava agoniada, sensível. Minha mão esquerda a afagava levemente.
Por entre a forquilha do jamelão achei-o a me observar de lá do outro lado da cerca. Na diretoria, ele não abriu o bico. Apesar de não ter provas, sabia que tinha sido eu o sabotador de seu namoro. Mas não havia contado para ninguém. Era coisa a ser resolvida entre nós. Eu sabia disso, ele também. Ele era mais forte, eu me achava mais esperto. Por isso agia nas sombras, enquanto ele queria forra no meio da rua, me humilhar com as próprias mãos. Isso eu não deixaria acontecer. Ele ia e vinha, circulando em volta, à espera de uma única oportunidade, me olhando por baixo, bufando como um pequeno touro enjaulado.
Touros assim correm o risco de passar uma vida toda esperando. Às vezes, uma juventude, o que já é muito – e desistem.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Agreste



Os ventos de agosto vergastam
a pradaria à minha volta
vibra castigada pelo sol

o feroz calor
queima enquanto
contorcem as ramagens
bafejo morno que traz
a terra amarga

o tapete contrai-se
esfarrapado nas farpas do varal
o suor corta meu rosto
enquanto o horizonte se
estende mansamente

hirto, assisto inanimado,
à minha volta em agonia;
da ponta do casebre,
pende uma gaiola, vazia

o vento pachorrento de agosto
leva para além da aridez da vida,
do pássaro, o canto

a gaiola se contorce
no ritmo das ramagens,
presa ao elo metálico,
enferrujado. 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Rio salobro


Hoje meu olhar amanheceu saudoso
de crianças passarinhando
na primavera das frutas;
um rio salobro
esgueirou-se à revelia.



quinta-feira, 4 de julho de 2013

Bala perdida


No meio da turba que vai e vem rumorejante ergue-se uma mão macilenta, encrespada como se brotasse entre o rejunte do paralelepípedo – gritando surdamente por socorro. A multidão embalada num coro confuso de vozes passa apressado em todas as direções. Resvalam, atropelam, mas ninguém vê ou finge não ver o sofrimento mudo estrebuchando estirado no cimento.
Ela viera zumbindo, quente, certeira e alojara-se traiçoeiramente em suas costas sem ao menos pedir CPF ou permissão. Uma alma caridosa alivia de seu braço o peso do relógio, da aliança. Com carinho outra revista cuidadosamente os bolsos. O sol cede espaço, a noite compadecida sopra jornais relidos e amassados sobre o corpo enregelado, encostado ao meio fio “assim não atrapalha o trânsito”. 

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Angústia - Poema