quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Insolação - (Estripulias do Saci)


Aqui tudo vai de mal a pior. Toda tarde uma grande nuvem surgia no horizonte arrastando-se em nosso rumo. Olhávamos como encantados para ela esperando o primeiro pingo. Nada. Ficávamos até tarde esperando o milagre do primeiro pingo. A noite avançava, a nuvem esvaía-se ficando a angústia ressecando a garganta. Ao apertar-lhe as tetas, em resposta, as pobres vacas soltavam um mugido de dor. No dia anterior a última tombou sem vida, em puro couro, osso e um fiapo de som rouco no lugar do mugido.
Ficou ali mesmo onde caíra. Não havia ânimo para arrastá-la para algum lugar. Nem tinha o que feder. Puro couro e osso. Nem os carcarás ousaram deixar o galho seco para apreciar a carniça. Ficaram pendurados aos galhos como frutas malditas de um tronco sem vida. A bica d’água parou de escorrer. Agora era preciso caminhar até o leito do córrego, pisar com cuidado para não espantar os ciscos, e encher a vasilha maior com uma menor.
Ontem mesmo, meu pai voltou do campo ainda mais desolado. Fiquei sabendo mais tarde, pela minha mãe – o potro que eu havia ganhado no aniversário passado, amanhecera morto no brejo. Certamente à procura de beber.
Quando me levantei, a manhã estava límpida. Nenhum risco de nuvem no infinito azul. Ao caminhar, os pés queimavam nas labaredas invisíveis. Dava dois ou três saltos antes de me acomodar sob alguma moita de arbustos ressequidos. Andei sem um propósito sequer. O calor insuportável enervava todos. Eu me mexia saltitante em volta da casa. Minha mãe resmungava num canto.
O calor insuportável, os resmungos, as aves de rapina quietas, o silêncio do mau pai, a nuvem que vinha todas as tardes arrastando a barrigona sobre os galhos secos. Ainda para completar, começaram os espirrar sem parar. O motivo devia ser uma onda de fumaça que se aproximava rastejante, afagando tudo que encontrava pela frente. Ainda ouvi meu pai gritar do limiar da porta, “os diabos abriram a porta do inferno! Não há outra explicação”. Depois, senti que a terra se remexia sob meus pés, fazia ondas gigantes e em seguida me precipitou num abismo vertiginoso.
Eu insistia em andar aos tropeços, agachado sobre os calcanhares, deitando de barriga no chão. A terra dava voltas e mais voltas. Eu, determinado, enterrava as unhas no chão, sangrava, doía. Mas eu não podia me soltar. Com muito custo, alcancei a porta, olhei para os lados e não havia ninguém, embora eu continuasse a ouvir os resmungos de minha mãe no meio do redemoinho de silêncio. Meus dedos sangravam. Arrastei-me com os cotovelos até meu quarto. Subi com dificuldade na cama e fiquei quieto como bicho à espreita. As roupas estavam molhadas, e o corpo tremia de frio.
O rumor agora era o murmurar do vento contra os galhos das árvores na noite. Aos poucos o escuro foi se agitando. Ventos torciam os ingazeiros rufando trovões, estremecendo a terra. Deitado, observei através das frinchas da parede riscos dos raios no céu negro. A lamparina ao pé da cama não parava acesa por conta da ventania a invadir o quarto; e a luz era consumida pela escuridão.
No piquete, o tropel misturava-se ao retumbar das descargas dos trovões. Os animais incitavam em estridente disparada e esticavam até bater o peito no outro extremo do cercado. Viravam e reiniciavam a corrida, relinchando. Em meio a essa balbúrdia, finíssimos assovios rompiam a tempestade e feriam-me, como finas agulhas, os ouvidos – provocando estremecimento no corpo inteiro.
– Liga não, é o saci montando os cavalos. Ele aproveita as noites escuras para cavalgar e fazer tranças nas crinas dos animais. Quase se matam de correr, os pobres bichos. Dizem que ele é sozinho e assovia, procurando um companheiro. Por isso não é bom assoviar à noite; porque daí ele vem falar com você, querer amizade – diziam os mais velhos, jogando conversa fora, sentados à sombra copada do jamelão. Essa ideia me deixava apequenado.
Enrolava-me o mais que podia. Mas mesmo assim ainda era possível ver os relâmpagos através da espessa malha do cobertor. Os vultos se contorcendo do lado de fora me deixavam com dificuldades de respirar. Minha imaginação mirava monstros de todas as espécies, mesmo os olhos fechados. Meu coração agitava-se e as mãos trêmulas se esfregavam suadas.
O quarto vagava através da tempestade. Não saberia distinguir a realidade nesse momento. O que sei é que um homem, com um meio sorriso, aproximou-se de mim. Caminhando lentamente, estendeu-me os braços:
– Você assoviou para mim?
Meus sentidos me faltaram, o grito morreu na garganta. Tentei correr, percebi que tropeçara em algo estendido no chão. Caí de rosto na terra fria e, no desespero, olhei para o lado. Dei com as vistas nos pés da criatura. Estavam virados para trás.
Quis correr, mas dois braços colocaram fim à minha intenção. Gritei com todas as forças, e agora podia ouvir meu próprio grito chegar frenético aos meus ouvidos – para logo em seguida uma voz familiar me acalmar:
– Está com febre, todo molhado de suor. – Abri os olhos e o sol já nascera. Olhei para os lados, ainda ofegando muito. Uma caneca com chá-de-laranja fumegava em minhas mãos.
– Bem quente... Corta a febre.
Mais tarde já pude sair do resguardo. Recobrados os sentidos, dei uma volta pelo terreiro. Espichei até o pé de jamelão. Por curiosidade, olhei-o de baixo a cima. Estava todo retorcido. Examinei atentamente o chão: seco, completamente seco, sem um pingo de chuva. Conjeturei a possibilidade de sonho. Mas, e os galhos retorcidos? Os rastros dos pés descalços no terreiro, as cercas arrebentadas? Os cavalos que não se encontravam presos? As tabuinhas reviradas na cumeeira – pela ventania, só pode!
Passei o dia encabulado, minha mãe enchendo-me de todo tipo de chá e simpatia. “Tá esquisito, esse menino”, ouvia ao longe como se as vozes ecoassem através de um longo túnel.
Acredito que estava dormindo, quando um estrondo me fez acordar e saltar da cama com o cobertor na mão. Não dormi de imediato. Depois de um tempo, voltei a pegar no sono. Quando levantei, a manhã estava escura de nuvens, como nas vésperas, porém a fumaça era menos intensa. E observando melhor, as nuvens pareciam mais baixas e mais pesadas, como se tivessem inchadas, ou prenhes de chuva. Cheguei a sorrir com esse fugaz pensamento.
O calor não estava tão insuportável como nos dias anteriores. Se minha imaginação não me traía, uma corrente chegava tímida de algum buraco. Ergui a cabeça e farejei o cheiro de ar fresco, como há muito não sentia. A terra vibrou como que estremunhada de sono profundo.
Por instinto, joguei-me ao chão. Mal tive tempo de gritar, quando as aves de rapina bateram asas e abandonaram o galho seco depois de muito tempo. A chuva chegou num repente, como se as nuvens abrissem suas barrigonas. Aos poucos os barulhos das coisas foram retornando. Dava para cheirar o ar. E o cheiro de podre chegou através da bica d’água. Passou pela cozinha e correu escura por um tempo. Depois, clareou e levou consigo o cheiro de podre. O riozinho que quase se finara, ergueu-se com uma orquestra de ruídos.

Um relincho vindo do curral despertou minha atenção. Os cavalos haviam retornado. Meu coração saltou alegre. Entre todos, reconheci o potro que havia ganhado de presente de aniversário. Corri e o abracei pelo pescoço; ele relinchou novamente como se não me visse há muito tempo. Suas crinas trançadas caprichosamente em três pontas. Tentei desatar as tranças, mas uma dor aguda impediu os movimentos de meus dedos. Meu pai ao lado me olhou com naturalidade. Até sorria depois de muito tempo. Os meus dedos estavam em carne viva e sangravam tingindo a crina do animal.

sábado, 12 de outubro de 2013

Pique-ajuda



Acomodei-me e respirei fundo. A corrida minara-me as forças, mas tinha conseguido meu intento. Havia conseguido derrotá-lo da forma mais cruel. Escondi-lhe as roupas de escola. Ele apanhou muito. Fiquei com um pouco de pena e devolvi suas roupas às escondidas na varanda da casa. A camisa branca, vermelha de barro, mas devolvi. Também, quem manda se meter com a namorada dos outros. Ela não voltara comigo, mas havia largado ele, ali, no meio do pátio, na frente de todos os alunos.
Primeiro, às escondidas, pegamos um toco de batom de minha irmã mais velha; pintei a boca e quando ele saiu no intervalo da aula, beijei várias bocas vermelhas no caderno dele assinando com o nome de uma menina que não existia. Mas ela não haveria de saber esse detalhe.
Ela também merecia. Eles haviam combinado estudar juntos à tardinha. Foi um reboliço. Ela o estapeou na frente de todos. De quebra, minha irmã queria saber como o batom dela foi parar no caderno dele.
A noite tinha se aproximado a passos macios. Meu peito roncava querendo ar. Uma das mãos acudia o peito, a outra especada no pé de jamelão.
Meu tempo estava acabando, tinha novamente que ficar à disposição do pega. Mirei o vulto do pé de mamoneira e disparei uma corrida estrepitosa. Os calcanhares batiam na bunda, o vento soprava nos ouvidos, vuuuuuuuuuu! vuuuuuuuuuu! Meu sorriso ficou largo quando minha barriga sentiu o chão áspero sob a mamoneira.
A meninada batucava os pés descalços na terra batida. Eu, com uma orelha pregada no chão, ouvia o corre-corre que se aproximava e se afastava. A terra vibrava sob aqueles pés lépidos. O ar reverberava sob o efeito da algazarra das gargantas juvenis. Não se ouvia outra coisa além dos tuque-tuques acelerados e os berros. Ora ou outra vinha um grito dizer ao meu ouvido:
– Te peguei! Agora você é o pega!
Eu era um dos maiores do grupo. Mas não dos mais danados – esses, geralmente, são menores. A algazarra continuava. O ponto de referência era o pé de jamelão. Eu gostando de estar ali, na sombra da lua desmilinguida que desfilava lá no alto, parecendo foice sem cabo. Mesmo com sua luz fraquinha, ela atravessava as folhas da mamoneira e pincelava meu rosto com rajadas claras.
Pus-me de pé e firmei o pensamento no rumo da árvore. Minhas pernas desprenderam novamente uma corrida louca. Os ramos faziam arder minhas canelas de socó. Agora era um bando de pegas. Eu era o último a ser pego; porém, eu não sabia. Mirei a grande sombra, mas, quando já ia imaginando esticar o braço para tocar o jamelão, tropecei numa raiz e fui de cara na terra.
A noite entrou em meus olhos e ateou fogo na carne assim que ouvi uma gargalhada sátira emparelhada comigo. Minha mão estalou numa fuça, ardeu e formigou, estancando a maldita galhofa. Emergiu, imediatamente, um choro. A foice, lá do céu, cortou um pouco do escuro do meu olhar. O fogo do sangue acalentava as cinzas.
Tudo indicava calmaria quando muitas bocas gritaram em uníssono:
– CUIDADO!
Meu pescoço se torceu um pouco para a direita. Um objeto passou sibilando grosso junto à minha orelha, vuuuup! Chegou a arder – ainda que não muito –, instantes depois. Foi estrondar no peito do jamelão. Não diria nada em casa. De nada adiantava: custar-me-ia bem uma surra de vara verde, daquelas de levantar calombo, e depois a marca ficaria pregada na pele por uma semana.
Aquelas conjecturas me tiraram a inspiração para o pique-ajuda. Resolvi parar. Afinal, já “tava bem grandinho”, como dizia minha mãe.
Na manhãzinha, com o chilrear dos pássaros e a noite já tendo abandonado as galhadas do jamelão, acheguei-me bem perto para avaliar o estrago. Aquela maldita banda de tijolo molestou a minha orelha a noite inteira. A pobre estava agoniada, sensível. Minha mão esquerda a afagava levemente.
Por entre a forquilha do jamelão achei-o a me observar de lá do outro lado da cerca. Na diretoria, ele não abriu o bico. Apesar de não ter provas, sabia que tinha sido eu o sabotador de seu namoro. Mas não havia contado para ninguém. Era coisa a ser resolvida entre nós. Eu sabia disso, ele também. Ele era mais forte, eu me achava mais esperto. Por isso agia nas sombras, enquanto ele queria forra no meio da rua, me humilhar com as próprias mãos. Isso eu não deixaria acontecer. Ele ia e vinha, circulando em volta, à espera de uma única oportunidade, me olhando por baixo, bufando como um pequeno touro enjaulado.
Touros assim correm o risco de passar uma vida toda esperando. Às vezes, uma juventude, o que já é muito – e desistem.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Agreste



Os ventos de agosto vergastam
a pradaria à minha volta
vibra castigada pelo sol

o feroz calor
queima enquanto
contorcem as ramagens
bafejo morno que traz
a terra amarga

o tapete contrai-se
esfarrapado nas farpas do varal
o suor corta meu rosto
enquanto o horizonte se
estende mansamente

hirto, assisto inanimado,
à minha volta em agonia;
da ponta do casebre,
pende uma gaiola, vazia

o vento pachorrento de agosto
leva para além da aridez da vida,
do pássaro, o canto

a gaiola se contorce
no ritmo das ramagens,
presa ao elo metálico,
enferrujado. 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Rio salobro


Hoje meu olhar amanheceu saudoso
de crianças passarinhando
na primavera das frutas;
um rio salobro
esgueirou-se à revelia.



quinta-feira, 4 de julho de 2013

Bala perdida


No meio da turba que vai e vem rumorejante ergue-se uma mão macilenta, encrespada como se brotasse entre o rejunte do paralelepípedo – gritando surdamente por socorro. A multidão embalada num coro confuso de vozes passa apressado em todas as direções. Resvalam, atropelam, mas ninguém vê ou finge não ver o sofrimento mudo estrebuchando estirado no cimento.
Ela viera zumbindo, quente, certeira e alojara-se traiçoeiramente em suas costas sem ao menos pedir CPF ou permissão. Uma alma caridosa alivia de seu braço o peso do relógio, da aliança. Com carinho outra revista cuidadosamente os bolsos. O sol cede espaço, a noite compadecida sopra jornais relidos e amassados sobre o corpo enregelado, encostado ao meio fio “assim não atrapalha o trânsito”. 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Um pequeno tufão - (Paulo Bentancur)


Buda observa, da janela central no primeiro andar do sobrado, o pequeno túnel que a rua fronteiriça construiu ao acaso. A carreira de prédios altos que nasce lá longe, defronte do rio, bebe da brisa aparentemente suave que lambe as águas poluídas, brisa que cresce pela rua estreita, vai se transformando em vento forte, e quando chega diante do sobrado, na pequena praça, virou uma ventania, é sempre assim, quase todo dia, e um dia não era brisa no rio, era vento forte mesmo, e foi correndo e aumentando através da rua e desembocou num estrondo de janelas no sobrado. Uma espécie de tufão, pequeno – estamos no Brasil –, mas assustando todo mundo, e a tia desceu as escadas correndo, resvalou, caiu tentando se agarrar nas laterais, esfolando a mão, os joelhos, e levantando em seguida e saindo para a calçada, o redemoinho erguendo folhas amarelas das árvores quase secas, papéis sujos, pó, cabelo e saias.

Buda na janela se alarma. Pára, tia, sai daí, grita, e sua voz morre no ruído da ventania. Ele grita mais uma vez, é inútil, ela não escuta, e se escutasse ainda assim seria inútil, estrondam raios no céu plúmbeo, o chicote nas árvores frágeis, a tia grita uma mistura de medo e volúpia, ai, ai, aiiiiiiii, o vestido verde limão subindo até os seios, ela grita e não é de pavor, se fosse pavor ela retrocederia, ela avança, pára no meio da rua, não há perigo, não há tráfego, os automóveis desapareceram como por encanto, o vento, o vento, o vento, a ruazinha armou essa cilada, Buda quase resvala na escada, sai na calçada, aquela casa e aquela família cuspiram mais um desesperado, o vento esbofeteia-o, lembra, menino, a dor das agulhadas da areia na beira da praia, o vento marinho fustigando-lhe as pernas, mas agora está de calças, grossas calças de brim, não há tempo de recordar, a tia no meio da rua grita rindo, eu sou puta!, eu sou puta!, o rio fica longe, e está poluído, a ruazinha deve ter uns três quilômetros, é só ruazinha porque é estreita, mas tem a profundidade de uma avenida, de um rio, a porta do sobrado está aberta, o vento sobe as escadas.

Buda não consegue agarrar a tia, ela luta, o vento, ela agora corre, o sobrinho, ridículo, atrás dela. Ninguém ri de ver a cena. A mãe de Buda chora por dentro. No rosto é apenas uma máscara de paciência. A irmã de Buda fica quietinha no quarto, nem quer saber o que está acontecendo. O pai de Buda, cunhado da tia, desce as escadas, vai fechar a porta. Uma hora Buda volta, com a tia a tiracolo. Dessa ele não descuida. A mãe abriu uma tesoura em forma de cruz sobre a mesa da cozinha. Mas nem se lembra de rezar. Ainda há uma janela batendo, talvez no fundo do corredor. O quarto da tia.

Mais tarde, o que se anunciava caiu na terra: água, muita água. A chuva começou chicoteando, socando forte as vidraças, erguendo contra a luz dos faróis e dos postes uma poeira amarela, o chão fincado de estilhaços como mínimas e geladas labaredas. Buda imaginou-se ali, mergulhado no ar tomado pelo aguaceiro, debaixo do céu carrancudo.

A tia já tinha entrado, e ficou agitada andando de um lado para outro no corredor, sem coragem de entrar no quarto, como se lá, na estreita, modesta peça, estivesse o tufão sem a liberdade da rua, preso, vociferando sua força contra as cortinas. Mas não havia mais nada disso, chovia apenas, a água acalmando a fúria das primeiras pancadas, apressando porém seu ritmo, agora mais contínuo e menos pesado.



(Conto do livro "A solidão do Diabo" - Bertrand Brasil, 2006)

Mini Biografia:
Paulo Bentancur, nascido em Livramento, RS, em 1957, é escritor, crítico literário e oficineiro. Autor de diversos gêneros, do conjunto de sua obra destacam-se "Instruções para iludir relógios (cronicontos, Artes e Ofícios, 1994), "Bodas de osso" (poemas, Bertrand Brasil, 2005) e "A solidão do Diabo" (contos, Bertrand Brasil, 2006). Ganhou 5 vezes o importante prêmio Açorianos de Literatura.




sexta-feira, 21 de junho de 2013

Voluntário - (Inglês de Souza)




A velha tapuia Rosa já não podia cuidar da pequena lavoura que lhe deixara o marido. Vivia só com o filho, que passava os dias na pesca do pirarucu e do peixe-boi, vendido no porto de Alenquer e de que tiravam ambos o sustento, pois o cacau mal chegava para a roupa e para o tabaco. Apesar da pobreza rústica da casa, com as suas portas de japá e as paredes de sopapo, com o chão de terra batido, cavada pela ação do tempo, tinha o tapuia em alguma conta o asseio. (...) Rosa tecia redes, e os produtos da sua pequena indústria gozavam de boa fama nos arredores. A reputação do tapuio crescera com a feitura de uma maqueira de tucum ornamentada com a coroa brasileira, obra de ingênuo gosto, que lhe valera a admiração de toda a comarca, e provocara a inveja do célebre Ana Raimunda, de Óbidos, o qual chegara o formar uma fortunazinha com aquela especialidade, quando a indústria norte-americana reduzira a inatividade os teares rotineiros do Amazonas (...) Pedro era em 1865 um rapagão de dezenove anos, desempenado e forte. Tinha olhos pequenos, tais quais os do pai, com a diferença de que eram vivos, e de uma negrura de pasmar, A face era cor de cobre, as feições achatadas e grosseiras, de caboclo legítimo, mas com um cunho de bondade e de candura, que atraía o coração de quantos lhe punham a vista em cima. 

Demais, serviçal e alegre até ali. (...) E naturalmente melancólica a gente da beira do rio. Face à face toda a vida com a natureza grandiosa e solene, mas monótona e triste do Amazonas, isolada e distante do agitação social, concentra-se a alma num apático recolhimento (...) O caboclo não ri, sorri apenas: e a sua natureza contemplativa revela-se no olhar fixo e vago em que se lêem os devaneios íntimos, nascidos da sujeição da inteligência ao mundo objetivo, e dele assoberbada. Os seus pensamentos não se manifestam em palavras por lhes faltar, a esses pobres tapuios, a expressão comunicativa, atrofiada pelo silêncio forçado da solidão. (...) Ninguém o podia dizer, mas é certo que até o princípio do ano de 1865, correram tranquilos os dias no cacoual do velho Rosa. Quem não sabe o efeito produzido a beira do rio pela notícia da declaração da guerra entre o Brasil e o Paraguai? Nas classes mais favorecidas da fortuna, nas cidades principalmente, o entusiasmo foi grande e duradouro. 

Mas entre o povo miúdo, o medo do recrutamento para voluntário da pátria foi tão intenso que muitos tapuios se meteram pelas matas e pelas cabeceiras dos rios e ali viveram como animais bravios sujeitos a todo a espécie de privações. (...) Descuidado e contente. Pedro labutava em paz, apesar das desgraças do tempo, ouvidas aos domingos, depois da missa, no adro da matriz. E quando lhe perguntavam se não receava o recrutamento", dizia com a candura habitual, que nunca fizera mal a ninguém, e era filho único de mulher viúva. Não contava, porém, com a ma vontade de Manuel de Andrade, mulato que era seu rival na pesca das tartarugas (...) Pelas 7 horas da manhã, a velha Rosa tratava do almoço e Pedro sentado á soleira do porta, preparava-se para caçar papagaios, limpando uma bela espingarda de dois canos, quando viu adiantar-se para o seu lado o capitão Fabrício, com os modos risonhos e corteses de um bom vizinho. Pedro ergueu-se surpreso e acanhado e pôs-se a balbuciar cumprimentos ao fazendeiro, cujo sorriso o enleava.

- Ora bom dia, seu Pedro. Então já sei que vai à caça? E está com uma bonita arma / Quer vendê-la? (...) — Eh, eh! seu Pedro, você esta um rapaz robusto e devia ser voluntário da Pátria. O governo precisa de gente forte lá no sul para dar cabo do demônio do López. Ora, é uma vergonha que você esteja a matar os pobrezinhos dos papagaios quando melhor quebraria a proa aos paraguaios, que são brutos também e inimigos dos cristãos.
Pedro balbuciava negativos e desculpas. Era filho único...não tinha jeito para a guerra... Quem tomaria conta da pobre velhinha? Mas o capitão pôs-lhe a mão no ombro dizendo em voz repassada de mel:

- Pois então tenha paciência. Se não quer ser voluntário, está recrutado.

(...) Pedro deu um pulo para trás, como se fora mordido por uma cobra. Recrutado, ele! A palavra fatídica soou-lhe aos ouvidos como anúncio de irreparável desgraça. O seu ar de candura e de bondade desapareceu por encanto, e o rapaz ficou todo transformado, como o pai, quando lutava braço a braço com alguma onça traiçoeira. Os olhos injetaram-se-lhe de sangue. Os lábios entreabriram-se para deixar sair a palavra rebelde, mas só descobriram os alvíssimos dentes, cerrados por um esforço violento. (...) O rapaz soltou um grito surdo, avançou contra Fabrício, arrancou-lhe a espingarda das mãos e brandiu-a sobre a cabeça do capitão, como se fora uma bengala. 

Quando ia descarregar a golpe, sentiu-se agarrado. Eram o sargento Moura e dois soldados, que, saindo dum matagal próximo, se haviam aproximado sem ser vistos. Ao ruído da luta, acudiu a velha Rosa, que soltando brados lamentosos, tentou arrancar o filho aos soldados, mas o capitão Fabrício segurou-a por um braço e atirou-a de encontro a um esteio da casa. (...) ferida e quase nua aos raios ardentíssimos do sol, a velha Rosa, a boa e generosa velhinha teria sucumbido miseravelmente, se por volta de meio dia não tivesse ali chegado o vizinho Inácio Mendes. O português vira do seu porto passar a canoa que levava o recruta e, desconfiando do que sucedera, viera, logo que pudera furtar algum tempo aos seus afazeres, informar-se do ocorrido. Pobre tia Rosa! Em que miserando estado a encontrara! (...) quando acordara, a claridade de um dia esplendido entrava pela transparência do japá. 

A rede da velha Rosa estava vazia. A mulher do Inácio Mendes correu ao porto e não achou a montaria de pesca de Pedro. Estava eu a esse tempo em Santarém, preparando uma viagem a Itaituba, a serviço da minha advocacia. Passeando uma tarde na praia do Tapajós, abeirou-se de mim uma cabocla velha em quem a custo reconheci a industriosa e boa velhinho do igarapé de Alenquer, em cujo hospitaleiro casa dormira algumas vezes de passagem pelo sítio (...) Contou-me a sua história, interrompendo-se a miúdo para limpar na manga do vestido as lagrimas que lhe corriam, e finalizou entregando-me um embrulho com dinheiro, duzentos e poucos mil réis, tudo quanto tinha, para que lhe livrasse o filho de jurar bandeira. Voltei imediatamente à cidade e, por intermédio de um amigo comum, obtive do delegado de polícia a licença de ver o recruta na cadeia, mas por uma só vez, e como exceção rara. 

O tapuio estava mergulhado num silêncio apático, de que nada o fazia sair (...) Empreguei a maior atividade nas diligências necessárias, porque sabia que era esperado a toda hora a vapor da Companhia do Amazonas, que devia levar o contingente de recrutas para a capital. Uma manha, vinha eu da casa do juiz com os melhores esperanças de êxito, pois se mostrava crente do direito que assistia ao meu cliente, e compadecido da sorte da velha que lhe não deixava a soleira da porta onde dormia. (...) Começou logo o embarque dos recrutas. Eram vinte rapazes tapuios os que a autoridade obrigava a representar a comédia do voluntariado. Vi-os sair da cadeia, entre duas filas de guardas nacionais, e encaminharem-se para o porto, seguidos dos parentes, dos amigos e de simples curiosos. Iam cabisbaixos, uns corridos de vergonha, como criminosos obrigados a percorrer as ruas da cidade nas garras da justiça; outros, resignados e imbecis como bois, caminhando para o matadouro; (...) Os curumins anunciavam os recrutas à medida que se aproximavam: - Os voluntários! Os voluntários!

Voluntários de pau e corda! disse cousticamente o vigário padre Pereira, fumando cigarros a porta de uma loja Apesar da tristeza do espetáculo que me compungia o coração, não pude deixar de alegrar-me por não ver entre os recrutas o filho da velha Rosa. Acompanhei a leva desde o quartel até a praia, vi-a emborcar, não me afastei enquanto o vapor não levantou ferros e procurou a barra do Tapajós, soltando um silvo rouco e prolongado. Adquiri então a certeza de que Pedro não embarcara (...) Comuniquei a nova à tia Rosa que fui encontrar sentado à porta do juiz de direito, onde passara a noite. Não partilhou da minha convicção. Na sua opinião, eu estava enfeitiçada. Pedro não estava no quartel e, portanto, seguira naquele mesmo vapor para a capital. Levei à conta de demência a incredulidade da velha e entrei na casa do juiz para informar-me do resultado do habeas-corpus. O magistrado disse-me com alguma tristeza:

- Escusado é tentar mais nada. O rapaz já embarcou. (...) Ainda ha bem pouco tempo, vagava pela cidade de Santarém uma pobre tapuia doida. A maior parte do dia passava-o a percorrer a praia, com o olhar perdido no horizonte, contando com voz tremula e desenxabida a quadrinha popular:

Meu anel de diamantes caiu n’àgua e foi ao fundo: os peixinhos me disseram: viva Dom Pedro Segundo.


Fonte: www.passeiweb.com

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