quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Os Assassinos - (Ernest Hemingway)



 A porta da lanchonete Henry’s abriu-se e entraram dois homens. Sentaram ao balcão.
- O que é que vai ser? – perguntou George.
- Não sei – disse um dos homens. – O que é que você quer comer, Al?
- Não sei – disse Al. – Não sei o que quero comer.
Escurecia lá fora. A luz da rua entrava pela janela. Os dois homens ao balcão leram o cardápio. Da outra extremidade do balcão, Nick Adams observava-os. Ele conversava com George quando eles entraram.
- Eu quero lombo de porco assado com molho de maçã e purê de batatas – disse o primeiro homem.
- Não está pronto ainda.
- Então por que diabos põem isto no cardápio?
- Isto é o jantar – explicou George. Você pode pedi-lo as seis da tarde.
George olhou para o relógio arás do balcão.
- São cinco horas.
- O relógio marca cinco e vinte – disse o segundo homem.
- Está vinte minutos adiantado.
- Ah, pro inferno com o relógio – disse o primeiro homem. – O que você tem para comer?
- Posso servir qualquer tipo de sanduíche – disse George. – Posso fazer presunto e ovos, bacon e ovos, fígado e bacon, ou um bife.
- Me dê croquetes de galinha com ervilhas verdes ao molho de nata e purê de batatas.
- Isto é o jantar.
- Tudo o que queremos é jantar, hein? Isso é jeito de servir?
- Eu posso servir presunto e ovos, bacon e ovos, fígado…
- Vou querer presunto e ovos – disse o homem chamado Al. Ele usava um chapéu-coco e um sobretudo preto abotoado na frente. O rosto era pequeno e pálido e tinha os lábios finos.Usava um cachecol de seda e luvas.
- Me dê bacon e ovos – disse o outro homem. Tinha quase o mesmo tamanho de Al. Os rostos eram diferentes, mas estavam vestidos como gêmeos. Ambos usavam sobretudos muito pequenos para eles. Sentaram e apoiaram os cotovelos no balcão.
- Tem algo para beber? – perguntou Al.
- Cerveja, sucos e refrigerantes.
- Perguntei se tinha alguma coisa para beber?
- Só o que eu disse.
- Esta é uma cidade quente – disse o outro. – Como se chama?
- Summit.
- Já tinha ouvido? – perguntou Al ao amigo.
- Não – disse o amigo.
- O que fazem por aqui à noite? – perguntou Al.
- Eles jantam – disse o amigo. Ele vem todos aqui e comem a grande janta.
- É isso mesmo – disse George.
- Então você acha isso mesmo? – Al perguntou a George.
- Claro.
- Você é um rapaz espertinho, não é?
- Claro – disse George.
- Bem, mas não é – disse o outro sujeito. – Você acha que ele é, Al?
- Ele é um bobo – disse Al. Virou-se para Nick. – Qual é o seu nome?
- Adams.
- Outro espertinho – disse Al. – Ele não é um espertinho, Max?
- A cidade está cheia de espertinhos – disse Max.
George pôs as duas travessas, uma com presunto e ovos e outra com bacon e ovos, sobre o balcão. Juntou dois pratos de batatas fritas e fechou o postigo da cozinha.
- Qual é o seu – perguntou a Al.
- Não se lembra?
- Presunto e ovos.
- É mesmo um espertinho – disse Max. Inclinou-se e pegou o presunto com ovos. Os dois homens comeram sem tirar as luvas. George observava-os comer.
- O que está olhando? Max olhou para George.
- Nada.
- Vá pro inferno. Você estava me olhando.
- Talvez o rapaz o fez por brincadeira, Max – disse Al.
George riu.
- Você não tem que rir – disse Max. Não tem nada para rir, viu?
- Está bem – disse George.
- E ele pensa que está tudo certo – disse Max virando-se para Al. – Ele acha que está tudo certo. É um cara legal.
- Ora, ele é um filósofo – disse Al. Continuaram comendo.
- Qual é o nome do espertinho lá do fim do balcão? – perguntou Al para Max.
- Ei, espertinho – disse Max a Nick. Passe para o outro lado do balcão, com seu amiguinho.
- Qual é a idéia? – perguntou Nick.
- Não há idéia nenhuma.
- É melhor dar a volta, espertinho – disse Al. Nick passou para trás do balcão.
- Qual é a idéia? – perguntou George.
- Não é da sua maldita conta – disse Al. – Quem está na cozinha?
- O negro.
- O que quer dizer com “o negro”?
- O negro da cozinha.
- Diga-lhe para entrar.
- Onde pensam que estão?
- Maldição, sabemos muito bem onde estamos – disse o homem chamado Max. – Parecemos tolos?
- Você fala como um tolo – disse-lhe Al. Que diacho quer discutir com esse cara? Escute aqui – disse a George -, diga ao negro para vir aqui.
- O que vão fazer com ele?
- Nada. Use a cabeça espertinho. O que iríamos fazer com um negro?
George abriu o postigo da cozinha. – Sam – chamou. – Venha aqui um minuto.
A porta da cozinha abriu-se e o negro entrou. – Que foi? – perguntou. Os dois homens no balcão olharam-no.
- Muito bem, negro. Fique parado aí mesmo – disse Al.
Sam, o negro, vestindo seu avental, olhou os dois homens sentados ao balcão. – Sim, senhor – disse. Al desceu do seu banco.
- Vou à cozinha com o negro e o espertinho – disse ele. – Volte para a cozinha, negro. Você vai com ele, espertinho. – O sujeito foi atrás de Nick e Sam, o cozinheiro, até a cozinha. A porta fechou-se atrás deles. O homem chamado Max ficou sentado ao balcão defronte George. Não olhava para George, mas olhava para o espelho atrás do balcão. O Henry’s tinha sido transformado de salão em lanchonete.
- E
então, espertinho – disse Max olhando para o espelho – por que não diz alguma coisa?
- E por que tudo isso?
- Ei, Al – chamou Max – o espertinho quer saber por que tudo isso.
- Por que não diz a ele? – a voz de Max veio da cozinha.
- O que você pensa de tudo isso?
- Não sei.
- Que acha?
Max não deixou de olhar para o espelho, enquanto falava.
- Eu não diria.
- Ei, Al, o espertinho diz que não diria o que pensa de tudo isso.
- Estou escutado, certo -disse Al, da cozinha. Ele tinha escorado o postigo por onde passam os pratos da cozinha com uma garrafa de molho de tomate, para mantê-lo aberto. – Escute, espertinho – disse a George, da cozinha. – Fique em pé um pouco mais à frente no bar. Você movimente-se um pouco mais para a esquerda, Max. – Parecia um fotógrafo que organiza para uma foto de grupo.
- Fale comigo, espertinho – disse Max. – O que você acha que vai acontecer?
George não disse nada.
- Vou lhe dizer – disse Max. – Vamos matar um sueco. Você conhece um sueco enorme chamado Ole Anderson?
- Sim.
- Ele vem jantar todas as noites, não vem?
- Ele vem aqui às vezes.
- Ele vem às seis horas, não vem?
- Quando vem.
- Sabemos de tudo, espertinho – disse Max. Diga mais alguma coisa. Vai alguma vez ao cinema?
- De vez em quando.
- Você
deve ir mais ao cinema. Os filmes são bons para um menino esperto como você.
- Por que vão matar o Ole Anderson? O que ele fez a vocês?
- Ele nunca teve chance para nos fazer qualquer coisa. Ele nem mesmo chegou a nos ver.
E ele só nos vai ver uma vez – disse Al, da cozinha.
- Então, por que vão matá-lo? – perguntou George.
- Nós o estamos matando para um amigo. É só um favor para um amigo, espertinho.
- Cale-se – disse Al, da cozinha. Você fala demais, maldito.
- Preciso entreter o espertinho. Não é espertinho?
- Você fala demais, droga – disse Al. O negro e o meu espertinho se divertem sozinhos. Eu os amarrei como amiguinhas de conventos.
- Eu suponho que você esteve num convento.
- Nunca se sabe.
- Você esteve num convento muito legal. Lá é que você esteve.
George olhou o relógio.
- Se alguém entrar você diz que o cozinheiro está de folga, e se insistirem, diga que você mesmo vai entrar e cozinhar. Você entendeu, espertinho?
- Tudo bem – disse George. – O que vai ser com a gente depois?
- Isso depende – disse Max. Isso é dessas coisas que você nunca sabe antes da hora.
George olhou o relógio. Eram seis e quinze. A porta da rua abriu-se. Entrou um motorneiro de bonde.
- Oi, George – disse ele. – Posso jantar?
- Sam saiu – disse George. Ele volta em mais ou menos meia hora.
- É melhor eu procurar outro lugar – disse o motorneiro. George olhou o relógio. Eram seis e vinte.
- Muito bom, espertinho – disse Max. Você até que é um cavalheiro.
- Ela sabia que eu lhe estouraria a cabeça – disse Al, da cozinha.
- Não – disse Max. Não é isso. O espertinho é legal. Ele é um menino legal. Eu gosto dele.
Às seis e cinqüenta e cinco George disse: – Ele não vem.
Duas outras pessoas tinham entrado na lanchonete. Uma vez George fora à cozinha e fizera um sanduíche de presunto com ovos para “viagem”, que o homem quis levar com ele. Dentro da cozinha viu Al, com o chapéu-coco empurrado para trás, sentado num tamborete, atrás do postigo, com uma espingarda de cano serrado apoiada na borda. Nick e o cozinheiro estavam costas contra costas, num canto, cada um com uma toalha amarrada na boca. George preparara o sanduíche, embrulhara-o em papel impermeável, metera-o num saquinho, trouxera-o e o homem pagara e fora embora.
- O espertinho sabe fazer de tudo – disse Max. – Ele sabe cozinhar e tudo o mais. Você faria de qualquer moça uma boa dona-de-casa, espertinho.
- É? – disse George. Seu amigo, Ole Anderson, não vai aparecer.
- Vamos dar-lhe dez minutos – disse Max.
Max observava o espelho e o relógio. Os ponteiros do relógio marcaram sete horas, e depois sete e cinco.
- Vamos, Al – disse Max. – É melhor ir embora. Ele não vai aparecer.
- É melhor dar-lhe mais cinco minutos – disse Max, da cozinha.
- Nesses cinco minutos, entrou um homem e George disse que o cozinheiro estava doente.
- Por que diabos não arranjam outro cozinheiro? – perguntou o homem. – É assim que é. Saiu.
- Vamos, Al – disse Max.
- Que vamos fazer com os dois espertinhos e o negro?
- Não tem problema.
- Você acha?
- Claro. Já terminamos com isso.
- Não gosto disso, disse Al. Foi mal feito. Você fala demais.
- Ah, mas que inferno – disse Max. Temos que nos divertir, não temos?
- Dá no mesmo, você fala demais – disse Al. Saiu da cozinha. Os canos serrados da arma salientavam levemente sob a cintura do sobretudo apertado. Ele endireitou o casaco com as mãos enluvadas.
- Até logo, espertinho – disse ele a George. – Você tem muita sorte.
- É verdade – disse Max. Você devia apostar nas corridas, espertinho.
Os dois saíram porta a fora. George observou-os, através da janela, passar sob a luz do poste e atravessar a rua. Com seus sobretudos pequenos e chapéus-coco eles pareciam uma dupla teatral. George voltou a entrar na cozinha pela porta vaivém e desatou Nick e o cozinheiro.
- Eu não quero mais nada disso – disse Sam, o cozinheiro. – Eu não quero mais nada disso.
Nick levantou-se. Nunca tivera estado antes com uma toalha enfiada na boca.
- Escutem – disse ele. – Que diabos foi isso? Estava tentando bancar o valentão.
- Eles iam matar Ole Anderson – disse George. – Iam dar-lhe um tiro quando entrasse para comer.
- Ole Anderson?
- Sim.
O cozinheiro apalpou os cantos da boca com os polegares.
- Foram todos embora? – perguntou.
- Sim – disse George. Já foram.
- Eu não gosto disso – disse o cozinheiro. Eu não gosto de nada disso.
- Escute – disse George a Nick. – É melhor você procurar Ole Anderson.
- Certo.
- É melhor você não se meter em nada disso – disse Sam, o cozinheiro. Fique fora disso.
- Irei procurá-lo – disse Nick a George. – Onde ele mora?
O cozinheiro se afastou.
- Garotos sempre fazem o que querem – disse ele.
- Vive na pensão de Hirsch – disse George a Nick.
- Vou até lá.
Fora, a luz do poste brilhava entre os galhos nus de uma árvore. Nick subiu a rua pelos trilhos dos bondes e, no poste seguinte, entrou numa rua lateral. A pensão de Hirsch era a terceira casa da rua. Nick subiu os dois degraus e tocou a campainha. Uma mulher veio até a porta.
- Ole Anderson está?
- Você quer vê-lo?
- Se ele estiver.
Nick seguiu a mulher por uma escadaria e até o fim de um corredor. Ela bateu à porta.
- Quem é?
- É alguém que quer vê-lo, senhor Anderson – disse a mulher.
- É Nick Adams.
- Entre.
Nick abriu a porta e entrou no quarto. Ole Anderson estava metido na cama, completamente vestido. Ela fora um pugilista peso-pesado e era grande demais para a cama. Tinha a cabeça apoiada em dois travesseiros. Não olhou para Nick.
- O que foi – ele perguntou.
- Eu estava no Harry’s – disse Nick, – e dois sujeitos entraram, amarraram a mim e ao cozinheiro, e disseram que iam matá-lo.
Soou absurdo quando ele disse. Ole Anderson não falou nada.
- Eles nos puseram na cozinha – continuou Nick. Eles iam atirar em você quando entrasse para jantar.
Ole Anderson olhava para a parede e não dizia nada.
George achou melhor eu vir contar a você.
- Não há nada que eu possa fazer a respeito – disse Ole Anderson.
- Vou lhe dizer como eles eram.
- Eu não quero saber como eles eram – disse Ole Anderson, olhando para a parede. – Obrigado por vir me contar.
- Tá certo.
Nick olhava para o homenzarrão deitado na cama.
- Não quer que eu vá a polícia?
- Não – disse Ole Anderson. Isso não adianta nada.
- Tem alguma coisa que eu possa fazer?
- Talvez fosse apenas um blefe.
- Não. Não foi um blefe.
Ole Anderson virou-se para a parede.
- O pior é que – disse ele, voltado para a parede – eu simplesmente não consigo me decidir a sair. Fiquei aqui o dia todo.
- Você não poderia sair da cidade?
- Não – disse Ole Anderson. Estou cansado de viver fugindo.
Olhava para a parede.
- Já não há mais nada a fazer agora.
- Não dá para resolver isso de algum modo?
- Não, eu errei. – Falava com a voz neutra e sempre igual. – Não há nada a fazer. Daqui a pouco me decido a sair.
- É melhor eu voltar e falar com George – disse Nick.
- Até logo – disse Ole Anderson. Não olhou para Nick. – Obrigado por vir até aqui.
Nick saiu. Quando fechou a porta viu Ole Anderson, completamente vestido, metido na cama, olhando para a parede.
- Ele está no quarto o dia todo – disse a senhoria no andar de baixo. – Acho que ele não se sente bem. Eu disse a ele: “Sr. Anderson, o senhor deve sair e dar um passeio num dia agradável de outono como este”, mas ele não estava com vontade.
- Ele não quer sair.
- Lamento que não se sinta bem – disse a mulher. – Ele é um homem muito agradável. Ele era do ringue, você sabe.
- Sei.
- A gente nunca saberia se fosse pelo seu rosto – disse a mulher. Ficaram em pé, conversando diante da porta da rua. – É um senhor tão gentil.
- Boa noite, senhora Hirsch – disse Nick.
- Eu não sou a senhora Hirsch – disse a mulher. Ela é a proprietária. Eu só tomo conta disto para ela. Sou a senhora Bell.
- Bem, boa noite, senhora Bell – disse Nick.
- Boa noite – disse a mulher.
Nick caminhou pela rua escura até a esquina onde estava o poste, e depois seguiu pelos trilhos de bonde até a lanchonete Harry’s. George estava lá dentro, atrás do balcão.
- Esteve com Ole?
- Sim – disse Nick. Ele está em seu quarto e não quer sair.
O cozinheiro abriu a porta da cozinha quando ouviu a voz de Nick.
- Não quero nem mesmo ouvir – disse, e fechou a porta.
- Você falou sobre o que aconteceu? – perguntou George.
- Claro. Contei, mas ele já sabia do que se tratava.
- O que ele vai fazer?
- Nada.
- Eles vão matá-lo.
- Acho que vão.
- Ele deve ter-se envolvido em algo em Chicago.
- Acho
que sim – disse Nick.
- Que coisa infernal!
- É uma coisa terrível – disse Nick.
Não disseram mais nada. George abaixou-se para pegar uma toalha e limpou o balcão.
- Queria saber o que ele fez – disse Nick.
- Enganado alguém. Por isso se matam pessoas.
- Vou sair desta cidade – disse Nick.
- Sim – disse George. É uma boa coisa a se fazer.
- Não posso pensar nele esperando no quarto e sabendo que será apanhado. É uma coisa terrível.
- Bem – disse George, – é melhor você parar de pensar nisso.

------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Ernest Miller Hemingway (Oak Park21 de Julho 1899 — Ketchum2 de Julho 1961) foi um escritor norte-americano. Trabalhou como correspondente de guerra em Madrid durante a Guerra Civil Espanhola e a experiência inspirou uma de suas maiores obras, Por Quem os Sinos Dobram. Ao fim da Segunda Guerra Mundial se instalou em Cuba.[1]

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A mãe e o filho da mãe - (Wander Piroli)


Se não tivesse esquecido a chave, havia pelo menos a chance de entrar sem que a velha mãe acordasse. E quando mais tarde ela dissesse: “Você está chegando agora, Luiz?”, ele responderia tranquilamente: “Não, mãe. Eu estou aqui escrevendo há muito tempo”. Fora inútil pular o portão, para que ele não rangesse na madrugada vazia, e caminhar pisando o chão do quintal com excesso de zelo. Agora estava diante da porta, imbecil e ainda um tanto bêbado, embora já tivesse posto tudo para fora. Mais uma vez bateria na janela do quarto. E a velha mãe se levantaria lentamente, passaria a mão engelhada no soalho em busca dos chinelos e, encolhida dentro da imensa camisola branca, viria abrir a porta. Merda. Prometera-lhe chegar mais cedo e ao sair de casa estava certo de que afinal cumpriria a palavra. Pensara inclusive que era um ótimo plano ficar em casa, de vez em quando, com a velha conversando calmamente
sobre velhas coisas. Rosália lembrara várias vezes que estava ficando tarde, e ele dissera “já vou” e tomava mais um gole: era também muito bom plano ficar deitado de cueca no soalho, com o copo e Rosália ao alcance da mão. A madrugada estava fria e agora o vento começava a estalar o zinco da coberta. Antes de olhar o céu – escuro e baixo – sentiu o cheiro da chuva que se aproximava. Ergueu a gola do paletó e pensou em ir ao tanque lavar a boca. Mas ouviu a cama ranger e logo a voz da velha mãe, rouca, chamá-lo:
— É você, Luiz?
— Sou eu, mãe.
— Esqueceu a chave?
Sim, disse consigo mesmo.
— Você esqueceu a chave? – repetiu a velha.
— Mãe, não fica aborrecida não.
Desde a primeira vez havia dito esta frase, e vinha repetindo-a com mais frequência nos últimos meses.
— Levanta devagar – recomendou o filho – e calce os chinelos. A chave porém tinha sido introduzida na fechadura.
— Pode empurrar que eu já abri – disse a velha mãe.
— Vai deitar primeiro, aqui fora está um vento danado. Não percebeu o ruído dos chinelos arrastando-se na direção do quarto. A senhora levantou descalça, disse em pensamento.
— Você falou que não demorava – observou a mãe lá do quarto, quando
ouviu a porta fechar-se novamente. O filho não disse nada. Acendeu a luz da sala, pôs o paletó na cadeira, tirou a gravata e com ela na mão entrou no quarto da velha mãe e sentou na beirada da cama. A velha estava deitada de lado, com os cabelos brancos espalhados na fronha, enquanto os olhos miúdos piscavam  dentro das pálpebras arruinadas. A luz da sala iluminava metade do quarto, metade da cama.
— A senhora não devia levantar descalça – disse o filho pousando-lhe a mão na fronte. – O tempo está muito ruim. A velha mãe sacudiu a cabeça:
— Tira esta mão gelada daqui. – E segurou-lhe imediatamente a mão, levou-a aos lábios e beijou-a.
— Luiz – começou a velha.
— Não, mãe – disse o filho retirando a mão vergonhosa.
— Você disse que vinha cedo.
— Pois é. Esqueci que era sábado.
— Ontem não era sábado. O filho calou-se.
— Isso não é vida, Luiz – continuou a velha mãe.
— Eu sei. Mas não quero que a senhora fique preocupada. Nós vamos acabar com isto, nós dois.
A velha ergueu um pouco a cabeça do travesseiro para vê-lo melhor. O filho desviou o rosto.
— Você está bêbado, Luiz?
— Oh, mãe. É claro que tomei alguma coisa. Mas nós vamos acabar com isto também.
— Você já prometeu tantas vezes.
— Agora é diferente – tornou o filho com o rosto ainda voltado para a parede. – E a senhora vai me ajudar. Nós dois, não é, mãe? A velha não respondeu. A essa altura, porém, ele já podia supor que seus olhos estivessem úmidos, e a sensação desagradável de sempre lhe galgava o peito. Teve vontade de aproximar-se da cabeceira e beijá-la, como costumava fazer antes, ou então pousar a mão muito de leve na sua cabeça; deixar apenas a mão, sua sórdida mão, naqueles cabelos de neve. A velha mãe dormiu depressa, a boca muito murcha, o rosto em paz.
Ele ouviu nitidamente os primeiros pingos de chuva no telhado. Levantou-se, tirou o sal-de-fruta do guarda-louças, pôs um pouco na concha da mão esquerda, coma outra encheu meio copo d’água, jogou o sal na água e tomou-a de um trago. Acendeu um cigarro eem seguida
encostou a porta do quarto da velha mãe. Já deve ser bem mais de três horas, pensou, e embora sentisse o corpo moído, tinha experiência suficiente para saber o que aconteceria se tentasse dormir agora. Tirou maquinalmente o maço de papéis da cômoda com a mesma inutilidade como que já o fizera tantas e tantas vezes, e sentou-se à mesa da sala. As palavras embaralhavam-se, as linhas dançando. Desviou os olhos na direção da janela, mantendo-os muito abertos, e ficou prestando atenção ao ruído da chuva lá fora. A chuva descera rápida, violenta, e batia pesadamente nas telhas e estalava e gemia o zinco da coberta do tanque. Antes que tivesse consciência das coisas que deveria fazer, já estava de pé e dirigiu-se para o quarto da velha mãe.
— Luiz.
— Uai, mãe, pensei que a senhora estivesse dormindo. Espera aí que eu vou puxar a cama.
— Mas que chuva. – A velha levantou a cabeça do travesseiro. O filho arrastou a cama até junto ao guarda-roupa, para evitar a goteira que costumava cair nos pés da cama.
— Luiz, põe também o pano aqui n chão e as latas na cozinha porque senão amanhã fica tudo alagado. Obedeceu, como se cumprisse um antigo e permanente ritual. Parou depois perto do leito:
— Pronto, mãe. Agora a senhora trate de dormir.
— Você não vai deitar também?
— Daqui a pouco.
— Já é muito tarde, Luiz. Eu achava melhor você ir deitar de uma vez.
— Estou sem sono e quero ver se aproveito para escrever um pedaço.
— Deixa pra amanhã, meu filho. Você devia fazer essas coisas sempre de manhã, por causa dos olhos.
— Está bem. É só um pouco, e logo depois eu deito. A velha ajeitou-se debaixo da coberta, não adiantava insistir. E agora, enquanto o sono não viesse de novo, teria algum tempo para pensar no filho, na vida que o filho levava ou na vida que levava o filho. Ele voltou para a sala e olhou o maço de papéis em cima da mesa. Porcaria, disse para si mesmo. Há dois meses estava empacado naquela cópula e a coisa lhe verrumava os miolos e, por mais que se esforçasse, não conseguia que os dois fizessem o amor com verdade. E tudo se passava também numa noite de chuva, havia inclusive cheiro de chuva através da janela, e isto constituía uma boa base, mas a história não convencia. Um trovão rebentou súbito, e o estrondo repercutiu na casa.
— Luiz.
— Estou aqui, mãe. A senhora levou susto?
— Não. Eu estava acordada e vi antes o relâmpago.
— Vou levar um copo d’água pra senhora.
— Precisa não.
— Eu levo, mãe.
— Pode deixar que eu não quero. Você se assustou?
— Não.
A luz da sala piscou duas vezes como se fosse apagar. O filho levantou-se.
— Você está procurando a vela?
— Não, mãe, mas vou aproveitar para deixá-la de mão. Pode dormir sossegada.
— Luiz, vem cá.
— Sim.
Encontrou a velha sentada na cama.
— Eu não estou lembrada de ter guardado o frango na coberta.
— Deve ter guardado – disse o filho.
— Estava pensando nisso, Luiz. Fiz tanta coisa hoje de tarde que não me lembro.
— Aposto que a senhora guardou.
— Também acho, mas estou procurando lembrar. Você já imaginou se ele estiver fora nesse aguaceiro?
— Ele está debaixo da coberta, pode dormir sossegada. O filho esperou a mãe ajeitar-se, atravessou o quarto, passou pela cozinha e foi à privada, que dava para a coberta. Abriu a janelinha: o quintal estava escuro e a chuva continuava caindo intensamente. Sentou-se no vaso, apoiando as costas na parede. Experimentou fechar os olhos e viu até que ponto ainda estava sob efeito da bebida. O cubículo fazia-o sentir-se pior. Apressou-se e, retornando, deu com a velha novamente sentada na cama.
— O que é mãe?
— Não tem jeito de lembrar se guardei o frango.
— A senhora guardou.
— Se guardei, quando você passou pelo quintal deve ter visto se ele estava amarrado lá.
Vira-o sim, mas durante o dia. Um frango carijó, magrelo, amarrado pelo pé, com barbante, num dos moirões da cerca.
— Será que você viu?
— Não reparei, mãe. Estava muito escuro.
— É mesmo.
Sempre a velha comprava na véspera o frango do domingo e atava-o naquele moirão e, à tardinha, guardava-o debaixo da coberta.
— Sabe, Luiz – tornou a velha. – Estou achando que não guardei ele não. O filho não disse nada.
— Acho que esqueci.
— Esqueceu não, mãe.
— Você acha que não?
— A senhora nunca esquece.
A chuva persistia e o barulho das goteiras caindo nas latas da cozinha entrava pelo quarto.
— Coitado – continuou a velha.
— Por que vamos comê-lo no almoço?
— Não. Estou dizendo se ele ficou lá.
— Ora, mãe, a senhora guardou o frango.
— Será que eu guardei mesmo?
— Com toda certeza.
— Tenho pena dele, Luiz.
— Está bem, eu vou lá ver.
— Não, meu filho. Você não pode ir debaixo dessa chuva.
— Eu pego o guarda-chuva.
— Deixa ficar. Aqui dentro está quente.
O filho voltou à sala, pôs o paletó na cabeça e abriu a porta vagarosamente. Sentiu o ar frio e úmido da madrugada no rosto. Avançou com cuidado no chão lamacento. Curvou-se no escuro perto do lugar onde supunha estar a cerca. Agachou-se mais e pôs-se a tatear o chão. Esbarrou em algo molhado, inerte. Percebeu logo o contato das penas e através delas a melhor parte do que seria o almoço do domingo. Arrancou rápido o barbante da cerca e, antes que pensasse e depois dissesse “puta merda”, já havia atirado o frango por sobre o telhado da cozinha, no lote baldio.
— Então, Luiz? – perguntou a velha.
— Ele está lá – disse o filho jogando o paletó ensopado debaixo da pia.
— Ainda bem – disse a velha. – Você já pensou se ele tivesse ficado na tempestade?
— Pois é. Agora a senhora trate de dormir.
— Deus te abençoe. Luiz – disse a velha.
O filho apagou a luz da sala, foi para o quarto, tirou os sapatos enlameados, sentou na cama e ali ficou até fazer de novo 25 anos.

---------------------------------------------------------------------------------

Conto de Wander Piroli  extraído do Suplemento Literário de Minas Gerais - Belo Horizonte, Novembro/2011 - www.cultura.mg.gov.br  .



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Diabo coxo - (José Mattos)


 

Os dedos se movimentavam constrangidos por entre as várias sensações – como se a qualquer momento pudesse ser atacado por algo que desconhecia. Os sentidos buscavam outras paragens, procurando perder a noção do tempo, quando ali, postado diante do espelho antigo, desse com a moldura de madeira escura e sinuosa. Os pés então oscilaram, como se plantados em uma nau estreita sobre águas agitadas. Não sei por quanto tempo os fiapos de pensamentos circularam esvoaçantes, como trapos de nuvens açoitadas pelo vento.
O sorriso do espelho chicoteou minha insegurança, fez o sangue vibrar, queimando o rosto. Uma expressão de quem adivinhara deliberadamente as minhas intenções. Porém, não indicava reprovação, e sim, consentimento.
Atento a cada detalhe, a cada músculo retesado, as mãos cuidadosamente esquadrinharam o corpo nu entregue ao maior desespero. Meus olhos pularam para um vão no espelho e correram para além, nos prédios baixos: o espelho enrugado e movediço da lagoa, a linha sinuosa das montanhas, as matas, os paredões por onde em tempos de chuva escorriam lentamente lesmas, tracejando as pedras negras com filetes esbranquiçados.
Sabia que lá de fora, a qualquer momento, viria uma pancada na porta. Isso me afligiu de doer. Nem consigo imaginar qual seria minha reação, caso a porta se rompesse, escancarando minha clausura; e, uma vez aberto, encontrassem o armário onde ululam a turba ímpia e nodosa e lasciva. Temor de que os ventos gerais, doidamente, invadam meus aposentos e ponham-nos, soltos, esse bando de demônios travessos e inconsequentes. O riso retorcido pareceu ranger o metal do espelho. Pousou sua mão na minha mão, num gesto amigo, e assim introduziu-me ao mundo secreto das incertezas. Meus sentidos dançavam numa embriaguez, mesmo que desejada, perturbadora. Faíscas abrasaram-me inteiro, chamas pairaram sobre meu corpo. Perguntei-me, inquieto: sonho? Ai! Sonho ou realidade, a ele me entregara estupidamente. Vertigem e frio. Um frio cristalino de quem não sente mais as veias pulsarem. Tomado de incomum espanto, percebi que minha posição visual havia se alterado. Agora eu via-o no centro do aposento, uma figura distinta, mas pensativa. Dista de mim.
Moveu-se com presteza e, com um gesto igual aos meus, vasculhou as gavetas com uma segurança de quem conhece bem o ambiente. Serviu-se de cerveja e tabaco; encheu o cachimbo com impaciência e envolveu-se em seguida em espessa nuvem de fumaça. Coxeava levemente a perna esquerda. Em meio à fumaceira, aninhou-se em minhas vestes de missa. Continuando a fumar, passou uma minuciosa revista pelo quarto, retirou do bolso interno do meu casaco uma caixa de metal semelhante às usadas pelos botânicos; que eu nunca tive.
Girou no dedo indicador uma chave dourada. Atrevi-me, para iniciar conversa, a fazer-lhe algumas perguntas sobre a caixa que parecia interessá-lo tanto. Mas fui surpreendido com a sua antecipação:
Então, não entende, não é mesmo?
A pancada tão temida era naquele momento meu único nicho de Salvação, para talvez me tirar daquele estúpido sonho. Mas... E se não fosse sonho?
Por mil diabos coxos!
Minha cabeça latejava. O baque seco e repetitivo doeu-me cá dentro. O clique metálico da chave dourada contra a fenda da caixa selou a minha perspectiva de comunicação.
Meus ouvidos vibraram com a estrondosa gargalhada que encheu o compartimento. Depois, tudo voltou ao silêncio gelado do cristal. Virei-me para o lado, não consegui mais ver os prédios baixos: o espelho enrugado e movediço da lagoa, a linha sinuosa das montanhas, as matas, os paredões por onde em tempos de chuva escorriam lentamente lesmas, tracejando as pedras negras com filetes esbranquiçados. Não estavam mais lá. As nuvens escuras paralisaram e turvaram o prateado lampejante de minhas vistas.
----------------------------------------------------------------------------------------------------
Texto publicado pela revista :VOX, Julho/2012. VOX é uma revista cultural publicada pelo instituto Estadual do Livro (IEL) e a Companhia Rio-grandense de Artes Gráficas (Corag). 

A terra que nos deram - (Juan Rulfo)



Depois de caminhar todas as horas do mundo sem ouvir um único ruído, com os músculos retesados nem uma sombra de árvore, nem uma raiz de nada, ouve-se o ladrar dos cachorros.
A gente às vezes chegava a pensar, no meio deste caminho sem margens, que nada existiria depois; que não se poderia encontrar nada, ao final desta planura rajada de gretas e de arroios secos. Mas sim, existe algo. Há um povoado. Ouve-se o ladrar dos cachorros e sente-se no ar o cheiro da fumaça, e se saboreia esse perfume das pessoas como se fora uma esperança.
Mas o povoado está ainda muito lá adiante. É o vento que o aproxima.

Estamos caminhando desde o amanhecer. Agorinha é por volta das quatro da tarde. Alguém se vira para o céu, estira os olhos até onde está dependurado o sol e diz:

— São mais ou menos as quatro da tarde.

Esse alguém é Militão. Junto com ele, vamos Faustino, Estevão e eu. Somos quatro. Eu nos conto: dois adiante, outros dois atrás. Olho mais atrás e não vejo ninguém. Então me digo: "Somos quatro". Não faz muito, lá pelas onze, éramos vinte e tantos, mas aos pouquinhos foram se dispersando até não restar nada mais que este punhado que somos nós.

Faustino diz:
— É capaz que chova.
Todos levantamos a cara e miramos uma nuvem negra e pesada que passa por cima de nossas cabeças. E pensamos "É capaz, sim".
Não dizemos o que pensamos. Já faz tempo que se acabou nossa vontade de falar. Acabou-se com o calor. Qualquer um conversaria muito à vontade em outra parte, mas aqui dá trabalho. A gente conversa aqui e as palavras se esquentam na boca com o calor de fora, e ressecam a língua da gente até que acabam com o fôlego. As coisas aqui são assim. Por isso ninguém está para conversas.
Cai uma gota d'água, grande, gorda, fazendo um furo na terra e deixando uma pasta como de uma cusparada. Cai só ela. Esperamos que continuem caindo outras e as buscamos com os olhos. Mas não há mais nenhuma. Não chove. Agora, se a gente olha o céu, vê a nuvem escura correndo lá longe, a toda pressa. O vento que vem do povoado se encosta nela, empurrando-a contra as sombras azuis dos morros. E a gota caída por engano, esta a terra come e desaparece com ela em sua sede.

Quem diabos faria este llano tão grande? Para que serve, hein?
Voltamos a caminhar, havíamos parado para ver chover. Não choveu. Agora tornamos a caminhar. E a mim me ocorre que temos caminhado mais do que temos andado. Ocorre-me isto. Tivesse chovido talvez me ocorressem outras coisas. Afinal eu sei que, desde que eu era garoto, nunca vi chover sobre o llano o que se chama chover.

Não, o llano não é coisa que sirva. Não há coelhos, nem pássaros. Não há nada. A não ser uns quantos arbustos enfezados e uma que outra manchinha de carrapicho com as folhas enroscadas, a não ser isso não há nada.

E por aqui nos vamos nós. Os quatro a pé. Antes andávamos a cavalo e trazíamos uma carabina terçada. Agora não trazemos nem sequer a carabina.
Eu sempre achei que fizeram bem nisso de nos tirar a carabina. Por essas bandas acaba sendo perigoso andar armado. Matam o cara sem avisar, se o vêem todo o tempo com "a 30" amarrada às correias.
Mas os cavalos são outro assunto. Se viéssemos a cavalo já teríamos provado a água verde do rio e passeado nossos estômagos pelas ruas do povoado para que a comida baixasse. Já teríamos feito isso, caso tivéssemos todos aqueles cavalos que tínhamos. Mas também nos tiraram os cavalos junto com a carabina.
Viro-me para todos os lados e contemplo o llano. Tanta e tamanha terra para nada. Os olhos do sujeito escorregam ao não encontrar coisa alguma que os detenha. Só umas quantas lagartixas saem a assomar a cabeça por cima de seus buracos e logo que sentem a chicotada do sol correm a esconder-se na sombrinha de uma pedra. Mas nós, quando tivermos de trabalhar aqui, que faremos para nos refrescar do sol, hein? Por que foi esta crosta dura como cimento que nos deram, para que a semeemos.

Nos disseram:
— Do povoado para cá é de vocês.
Nós perguntamos:
— O Llano?
— Sim, o llano, todo o Llano Grande.
Interrompemos o falador para dizer que o llano não queríamos. Que queríamos o que estava perto do rio. Do rio em diante, pelas várzeas, onde estão essas árvores chamadas casuarinas e a terra boa Não este duro couro de vaca que se chama llano.

Mas não nos deixaram dizer nossas coisas. O delegado não tinha vindo para conversar conosco. Pôs os papéis em nossas mãos e nos disse:
- Não vão se assustar com tanta terra só para vocês.
- É que o llano, senhor delegado.
- São centenas e centenas de alqueires.
- Mas não há água. Nem ao menos para se fazer um bucho tem água.
- E o temporal? Ninguém disse que receberiam terras irrigadas. É só chover ali e o milho se levanta como se fosse esticado.
— Mas, senhor delegado, a terra está esgotada, dura. Não cremos que o arado se enterre nessa como pedreira que é a terra do llano. Seria preciso fazer buracos com o enxadão para semear a semente e nem assim é possível nascer alguma coisa; nem milho nem nada nascerá.
— Transmitam sua reclamação por escrito. E agora vão-se. É o latifúndio que devem atacar e não o governo que lhes dá a terra.
— Espere, senhor delegado. Nós não dissemos nada contra o centro. É tudo contra o llano. A gente nada pode contra o que não pode. Isso é que dissemos. Espere para que a gente explique. Veja, vamos começar por onde íamos...
Mas ele não quis nos ouvir.
Assim nos deram esta terra. E nesta chapa quente querem que semeemos as sementes de algo, para ver se algo brota daqui. Nem urubus. A gente os vê lá longe de quando em quando, muito alto, voando às corridas, tentando sair o mais depressa possível deste branco torrão endurecido, onde nada se move e por onde se caminha como recuando.

Militão diz:
— Esta é a terra que nos deram.
Faustino diz:
— O quê?
Eu não digo nada. Eu penso: "Militão não tem a cabeça no lugar. De certo é o calor que o faz falar assim. O calor que traspassou o chapéu e esquentou-lhe a cabeça. E se não, por que diz o que diz? Que terra nos deram, Militão? Aqui não há nem o tiquinho de que necessitaria o vento para brincar de redemoinho.
Militão torna a dizer:
- Servirá para alguma coisa. Servirá nem que seja para correr éguas. Que éguas? — pergunta-lhe Estevão.


Eu não havia reparado bem em Estevão. Agora que fala, observo-o. Veste um capote que lhe chega ao umbigo, e debaixo do capote estica a cabeça uma coisa parecida com uma galinha.
Sim, é uma galinha o que Estevão leva debaixo do capote. Vê-se os olhos dormidos dela e o bico aberto como se bocejasse. Eu lhe pergunto:
- Escuta, Tevão, de onde surrupiaste essa galinha?
— É a minha! — diz ele.
— Não a trazias antes. Onde a negociaste, hein?
— Não a negociei, é a galinha de meu galinheiro.
— Então a trouxeste como mantimento, não?
— Não, trago para cuidar. Minha casa ficou vazia e sem ninguém que lhe desse de comer, por isso a trouxe. Sempre que saio para longe, carrego-a.

— Escondida aí vai se afogar. É melhor deixá-la ao ar livre.
Ele a acomoda debaixo do braço e lhe sopra o ar quente de sua boca. Logo diz:

— Estamos chegando ao despenhadeiro.

Já não ouço o que Estevão continua dizendo. Pusemo-nos em fila para descer a barranca e ele vai um tanto adiante. Vê-se que agarrou a galinha pelos os pés e a sacode a cada passo, para não lhe bater a cabeça contra as pedras.

À medida que baixamos, a terra se faz boa. O pó sobe de nós como se fosse uma tropilha de mulas o que baixasse por ali, mas gostamos de nos encher de pó. Gostamos. Depois de vir pisando durante onze horas a dureza do llano, nos sentimos muito à vontade envoltos naquela coisa que brinca sobre nós e tem gosto de terra.

Por cima do rio, sobre as copas verde das casuarinas, voam bandos de galinholas verdes. Isso também é de que gostamos.
Agora os latidos dos cachorros se ouvem aqui, junto a nós, e é porque o vento que vem do povoado esbarra no barranco e o enche de todos os seus ruídos.
Estevão voltou a abraçar sua galinha quando nos aproximamos das primeiras casa. Desata-lhe os pés para desinchá-los e logo ele e sua galinha desaparecem detrás de uns cedros.

— Por aqui eu fico — nos diz Estevão.
Nós seguimos adiante, mais para dentro do povoado.
A terra que nos deram está lá em cima.

_________________________________________________________________________________
Juan Rulfo nasceu em Jalisco, México, em 16 de maio de 1917. Passou a infância na fazenda de seus avós, em contato com a pobre gente dos campos, de quem mais tarde nos daria retratos tão vívidos e dramáticos. Numa linguagem descarnada e precisa, ele retrata em poucas linhas um quadro da desolada existência dos deserdados. Estudou para contador, trabalhou em vária organizações, mas sua vocação eram as letras.

Cedo publicou seus primeiros contos, na revista Pan, de Guadalajara. “El llano em llamas”, contos, é de 1953. “Pedro Páramo”, romance que o projetou internacionalmente como um dos nomes mais expressivos da literatura latinoamericana, é de 1955. O romance foi agraciado com o Prêmio Xavier Villaurrutia. Em 1980, o crítico mexicano Jorge Ayala Branco reúne no livro “El Gallo de Oro” textos que
Rulfo concebeu originalmente para o cinema. O escritor recebeu, nesse ano, o Prêmio Nacional de Literatura. Em 1983 recebe o Prêmio Príncipe das Astúrias, concedido pelo governo de Espanha.

Rulfo faleceu no dia 07 de janeiro de 1986. Seu nome é dado ao Prêmio de Literatura Latinoamericana e do Caribe, concedido pelo México. O premiado do ano 2003 foi o escritor brasileiro Rubem Fonseca.

O texto acima, publicado no livro “O llano em llamas”, foi extraído da revista “Ficção” de Julho de 1976, n° 7, pág. 58. A tradução é de Eglê Malheiros.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Angústia



Oh! Angústia, meu Deus! E que angústia!
Contemplar nossas matas fumaçando
Os bichos pelo fogo exilados
E as rapinas lá do alto os espreitando

Correm os animais abafados
Pelo manto negro da fumaça
Que sobe rebolando rumo ao céu
Predizendo um futuro de desgraça

Carcará baixa voo na fumaceira
Misturando-se às ruidosas labaredas
E logo sobe conduzindo entre as garras
A pobre lebre sem que ninguém interceda

Oh! Angústia, meu Deus! E que angústia!

Postagens em Destaque

Angústia - Poema