quarta-feira, 10 de abril de 2019
segunda-feira, 8 de abril de 2019
segunda-feira, 7 de janeiro de 2019
Enquete para escolha da capa
Gostaria de contar com a ajuda de você para escolher a melhor capa para meu livro A QUEIMADA que será lançado em breve pela https://www.editorapenalux.com.br/ - que me me enviou essas duas opções abaixo. Fico grato de poder contar com vocês.
Capa - 01
Capa - 02
quarta-feira, 17 de junho de 2015
A noite em que os hotéis estavam cheios - (Moacyr Scliar)
O casal chegou à
cidade tarde da noite. Estavam cansados da viagem; ela, grávida, não se sentia
bem. Foram procurar um lugar onde passar a noite. Hotel, hospedaria, qualquer
coisa serviria, desde que não fosse muito caro.
Não seria fácil,
como eles logo descobriram. No primeiro hotel o gerente, homem de maus modos,
foi logo dizendo que não havia lugar. No segundo, o encarregado da portaria
olhou com desconfiança o casal e resolveu pedir documentos. O homem disse que
não tinha, na pressa da viagem esquecera os documentos.
— E como pretende o
senhor conseguir um lugar num hotel, se não tem documentos? — disse o
encarregado. — Eu nem sei se o senhor vai pagar a conta ou não!
O viajante não
disse nada. Tomou a esposa pelo braço e seguiu adiante. No terceiro hotel
também não havia vaga. No quarto — que era mais uma modesta hospedaria — havia,
mas o dono desconfiou do casal e resolveu dizer que o estabelecimento estava
lotado. Contudo, para não ficar mal, resolveu dar uma desculpa:
— O senhor vê, se o
governo nos desse incentivos, como dão para os grandes hotéis, eu já teria
feito uma reforma aqui. Poderia até receber delegações estrangeiras. Mas até
hoje não consegui nada. Se eu conhecesse alguém influente… O senhor não conhece
ninguém nas altas esferas?
O viajante hesitou,
depois disse que sim, que talvez conhecesse alguém nas altas esferas.
— Pois então —
disse o dono da hospedaria — fale para esse seu conhecido da minha hospedaria.
Assim, da próxima vez que o senhor vier, talvez já possa lhe dar um quarto de
primeira classe, com banho e tudo.
O viajante
agradeceu, lamentando apenas que seu problema fosse mais urgente: precisava de
um quarto para aquela noite. Foi adiante.
No hotel seguinte,
quase tiveram êxito. O gerente estava esperando um casal de conhecidos artistas,
que viajavam incógnitos. Quando os viajantes apareceram, pensou que fossem os
hóspedes que aguardava e disse que sim, que o quarto já estava pronto. Ainda
fez um elogio.
— O disfarce está
muito bom. Que disfarce? Perguntou o viajante. Essas roupas velhas que vocês
estão usando, disse o gerente. Isso não é disfarce, disse o homem, são as
roupas que nós temos. O gerente aí percebeu o engano:
— Sinto muito —
desculpou-se. — Eu pensei que tinha um quarto vago, mas parece que já foi
ocupado.
O casal foi adiante.
No hotel seguinte, também não havia vaga, e o gerente era metido a engraçado.
Ali perto havia uma manjedoura, disse, por que não se hospedavam lá? Não seria
muito confortável, mas em compensação não pagariam diária. Para surpresa dele,
o viajante achou a idéia boa, e até agradeceu. Saíram.
Não demorou muito,
apareceram os três Reis Magos, perguntando por um casal de forasteiros. E foi
aí que o gerente começou a achar que talvez tivesse perdido os hóspedes mais
importantes já chegados a Belém de Nazaré.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Lua cheia
Sorrateira, esgueira-se entre nuvens
escuras
Enquadra-se em minha janela
Horas infinitas em silencio
Admiração mutua
Cismo ouvir suspiros:
Meus? Teus?
Dissolve-se o tempo
O encanto é rompido pelos os rugidos da manhã
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
À deriva - (Horácio Quiroga)
O homem pisou algo
brando e mole e, em seguida, sentiu a picada no pé. Saltou para frente, e ao se
voltar com um palavrão, viu a jararacuçu que se recolhia sobre si mesma;
preparava outro ataque.
O homem lançou uma rápida olhada a seu pé, de onde duas gotinhas de sangue
engrossavam dificultosamente, e então sacou o facão da cintura. A víbora viu a
ameaça, e fundiu mais a cabeça no centro mesmo de sua espiral; porém o facão
caiu sobre ela, deslocando-lhe as vértebras.
O homem abaixou-se para olhar a mordida, limpou as gotinhas de sangue, e
durante algum tempo contemplou. Uma dor aguda nascia dos dois pontinhos
violeta, e começava a expandir-se por todo o pé. Apressadamente, amarrou o
tornozelo com o lenço que trazia amarrado à cintura, e seguiu pela picada até
seu rancho.
A dor no pé aumentava, e de repente, o homem sentiu dois ou três fulgurantes pontadas que como relâmpagos haviam-se irradiado da ferida, até a metade da panturrilha. Movia a perna com dificuldade; uma sede metálica na garganta, seguida de uma sede ardente, arrancou-lhe outro palavrão.
Chegou finalmente ao rancho, e abraçou a roda do moinho. O dois pontinhos violeta desapareciam agora na monstruosa inchação do pé inteiro. Parecia-lhe enfraquecida, e a ponto de ceder, de tão tensa. O homem quis chamar sua mulher, mas sua voz se quebrou num grunhido rouco de garganta ressecada. A sede o devorava.
— Dorotea! — conseguiu lançar um grito. —
Me dá cachaça!
Sua mulher correu com um copo cheio, que o
homem sorveu de três tragos. Porém não havia sentido gosto algum.
— Te pedi cachaça, não água! — rugiu de
novo. — Quero cachaça!
— Mas é cachaça, Paulino! — protestou a
mulher, espantada.
— Não, me deste água! Quero cachaça, te
digo!
A mulher correu outra vez, voltando com o
garrafão. O homem bebeu um atrás do outro três copos, porém não sentiu nada na
garganta.
— Bom, isto está feio... - murmurou então,
olhando seu pé lívido e já com um brilho gangrenoso. Sobre a intensa atadura do
lenço, a carne transbordava como uma pavorosa morcela.
As dores fulgurantes sucediam-se em
relâmpagos contínuos, e chegavam agora à virilha. Além disso, a atroz sequidão
da garganta que o esforço parecia esquentar mais, aumentava. Quando pretendia
encorpar-se, um fulminante vômito manteve-o meio minuto com a testa apoiada na
roda de madeira.
Mas o homem não queria morrer, e descendo
à costa, subiu em sua canoa. Sentou-se na popa e começou a remar até o centro
do Paraná. Ali, a correnteza do rio, que nas imediações do Iguaçu corre por
seis milhas, o levaria antes de cinco horas a Tacurú-Pucú.
O homem, com fatigada energia, pode efetivamente chegar até o meio do rio; no entanto, ali suas mãos dormentes deixaram cair o remo na canoa, e por causa de um novo vômito — de sangue esta vez —, dirigiu um olhar ao sol que transpunha a montanha.
A perna inteira, até metade da coxa, era
já um pedaço disforme e duríssimo que rompia a roupa. O homem cortou a ligadura
e abriu a calça com a faca: a parte inferior desbordou inchada, com grandes
manchas lívidas e terrivelmente dolorosas. O homem pensou que não poderia
jamais chegar sozinho a Tacurú-Pucú, e decidiu pedir ajuda a seu compadre
Alves, embora fizesse muito tempo estivessem intrigados um com o outro.
A correnteza do rio precipitava-se agora
para a costa brasileira, e o homem pode facilmente atracar. Arrastou-se pela
picada costa acima, porém a vinte metros, exausto, ficou estendido de costas.
— Alves! — gritou com a força que pode; e prestou atenção em vão.
— Alves! — gritou com a força que pode; e prestou atenção em vão.
— Compadre Alves! Não me negue este favor!
— clamou de novo, levantando a cabeça do solo.
No silêncio da selva, não se ouviu um só rumor. O homem teve ainda forças para chegar até sua canoa, e a correnteza, apoderando-se dela de novo, levou-a à deriva.
No silêncio da selva, não se ouviu um só rumor. O homem teve ainda forças para chegar até sua canoa, e a correnteza, apoderando-se dela de novo, levou-a à deriva.
O Paraná corre ali no fundo de uma imensa
depressão, cujas paredes, com altura para lá de cem metros, estreitam
funebremente o rio. Desde as margens cercadas de negros blocos de basalto
eleva-se o bosque, negro também. Adiante, às costas, sempre a eterna muralha lúgubre,
em cujo fundo o rio afunilado se precipita em incessantes erupções de água
lodosa. A paisagem é agressiva, contudo, sua beleza sombria e calma cobra uma
majestade única.
O sol havia já havia caído, quando o homem, estendido no fundo da canoa, teve um violento calafrio. E, de repente, com assombro, pôs na vertical pesadamente a cabeça: sentia-se melhor. Somente a perna lhe doía, a sede apagava-se, e seu peito, livre já, abria-se em lenta inspiração.
O veneno começar a ir-se, não havia dúvida. Achava-se quase bem, e embora não tivesse forças para mover a mão, contava com a vinda do orvalho para repor-se todo. Calculou que antes de três horas estaria em Tacurú-Pucú.
O bem-estar progredia e, com ele, uma letargia cheia de recordações. Não sentia mais nada na perna nem no ventre. Viveria ainda seu compadre Gaona em Tacurú-Pucú? Por acaso veria também seu ex-patrão, mister Dougald, e o encarregado de obras?
Chegaria repentinamente? O céu, a poente,
abria-se agora num resplendor de sangue, e o rio se havia avermelhado também.
Da costa paraguaia, já em trevas, a montanha deixava cair sobre o rio sua
frescura crepuscular, em penetrantes eflúvios de flores de laranjeiras e mel
silvestre. Um casal de araras cruzou o céu muito alto e em silêncio até o
Paraguai.
Lá embaixo, sobre o rio de ouro, a canoa
derivava velozmente, girando de tempos em tempos sobre si mesma, ante a erupção
de um remoinho. O homem que ia nela se sentia cada vez melhor, e pensava no
tempo justo em que havia passado sem ver seu ex-patrão Dougald. Três anos?
Talvez, não tanto. Dois anos e nove meses? Talvez. Oito meses e meio? Isso sim,
certamente.
De repente, sentiu que estava gelado até o
peito. Que seria? E a respiração...
Ao madeireiro de mister Dougald, Lorenzo
Cubilla, havia conhecido em Puerto. Esperança em Sexta-feira
Santa...Sexta-feira? Sim, ou quinta-feira...
O homem estendeu lentamente os dedos da mão.
— Uma quinta-feira...
E parou de respirar.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
O menino que escrevia versos - (Mia Couto)
De que vale ter voz
se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar
se o que vivo é menos do que o que sonhei?
(VERSOS DO MENINO QUE FAZIA VERSOS)
— Ele escreve versos!
Apontou o filho, como se entregasse
criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o
esforço de alpinista em topo de montanha.
— Há antecedentes na família?
— Há antecedentes na família?
— Desculpe doutor?
O médico destrocou-se em tintins. Dona
Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso
por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias.
Tratava bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha
sido em noite de núpcias:
— Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.
— Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.
Ela hoje até se comove com a
comparação: perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar?
Pobres que fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, não
fora senão período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros de
unha suja, restos de combustível manchando o lençol. E oleosas confissões
de amor.
Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e para a escola do miúdo. Mas eis que começaram a aparecer, pelos recantos da casa, papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito.
— São meus versos, sim.
O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas, se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto?
Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado.
— O médico que faça revisão geral,
parte mecânica, parte eléctrica.
Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões e, sobretudo, lhe espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era pôr cobro àquela vergonha familiar.
Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:
— Dói-te alguma coisa?
—Dói-me a vida, doutor.
O doutor suspendeu a escrita. A
resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento:
Está a ver, doutor? Está ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o
miúdo:
— E o que fazes quando te assaltam
essas dores?
— O que melhor sei fazer, excelência.
— E o que é?
— É sonhar.
Serafina voltou à carga e desferiu uma chapada na nuca do filho. Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar longe! Mas o filho reagiu: longe, porquê? Perto, o sonho aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe.
O médico estranhou o miúdo. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu:
— Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clinica psiquiátrica.
A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente.
Na semana seguinte, foram os últimos a ser atendi dos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu.
— Não continuas a escrever?
— Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida — disse, apontando um novo caderninho — quase a meio.
O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.
— Não temos dinheiro —
fungou a mãe entre soluços.
— Não importa —
respondeu o doutor.
Que ele mesmo assumiria as despesas. E
que seria ali mesmo, na sua clínica, que o menino seria sujeito a devido
tratamento. E assim se procedeu.
Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto onde está internado o menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. E o médico, abreviando silêncios:
— Não pare, meu filho. Continue
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